Democracia entra na briga americana

LEONARDO LEONARDO SPINELLI

(lspinelli@jc.com.br)

Leia mais em: https://jc.ne10.uol.com.br/mundo/2020/11/11992159-eleicao-americana-na-terca-coloca-futuro-da-democracia-na-balanca.html



Após 46 dias de votação, as eleições dos Estados Unidos chegam ao seu ápice nesta

terça-feira (3), último dia do calen- dário oficial. Além de definir quem vai comandar a maior economia do mundo, o resultado terá repercus- são nos rumos da democracia mun- dial. Os prognósticos americanos são pouco animadores.


A Grande Recessão do final da década passada aumentou a insa- tisfação popular e abriu questio- namentos em relação ao movimen- to de globalização, que não trouxe respostas satisfatórias para proble- mas sociaise políticos. Foi a brecha perfeita para entrar em cena discur- sos populistas— comoo do republi- cano Donald Trump candidato à reeleição, que estimulam a polari- zação na sociedade e bradamo na- cionalismo como um freio à marcha globalizante que rouba empregos.


“A derrota de Trump seria uma perda gigantesca do populismo que surgiu como uma resposta bastan- te caótica à insatisfação dos cida- dãos à situação econômica após a Grande Recessão. Eu acho que sur- ge uma nova chance da democra- cia oferecer caminhos possíveis e negociados, dentro das estruturas democráticas. Isso é o mais impor- tante (dessa eleição)”, avalia Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.


No sentido oposto, a vitória de Trump poderá acirrar a briga con- tra o multilateralismo de mercado, que ainda peca em trazer respostas satisfatórias os problemas econômi- cos, políticos e sociais. “Os Estados Unidos exercem uma influência po- lítica sobre outros países, e na Eu- ropa em particular. Então, a eleição americana tem uma importância geopolítica muito grande”, diz Ivo Chermont, sócio e economista-che- fe da Quantitas Asset Management. No mercado de apostas, o adver- sário democrata Joe Biden apare- ce como favorito, apesar de a di- ferença para Trump ter diminuído nos últimos dias. Na sexta, a média dos palpites compilados pelo site Real Clear Politics apontava 64,2% das apostas (e dinheiro) para uma vitória de Biden, contra 34,8% de Trump (atualizar os números).O re- sultado registra os lances em bolsas de apostas de vários países. No Bra- sil, arriscar dinheiro em resultados

políticos é proibido.


Os cálculos nas mesas de jogos refletem as pesquisas. Na média nacional, o democrata estaria com 7,2 pontos de vantagem sobre o re- publicano, também de acordo com a compilação do Real Clear Politics. Os riscos à democracia não acaba- riam, no entanto, com uma vitória de Joe Biden. Que também começa a sentir pressão para aumentar o nú- mero de assentos na Suprema Corte. Enquanto as urnas estão abertas, Donald Trump vem batendo na tecla de que existiria um risco de fraude eleitoral nos votos pelo cor- reio, apesar de não haver evidên- cias claras de que seja verdade. É bom lembrar que a votação nos EUA começa 46 dias antes do dia oficial da eleição e as pessoas podem en- viar seus votos pelos correios. Este ano, por causa da pandemia, mais gente passou a votar de casa por medo da doença.


“O que a gente viu nos últimos meses é que muitos votos acabam sendo desconsiderados ou elimi- nados por erros, mais prováveis de acontecer nas votações por cor- reio”, afirma a analista de Política Internacional da XP Investimen- tos, Sol Azcune. Ela diz que, em casa, sozinho e sem ajuda, o elei- tor tem uma maior probabilidade de fazer confusão na hora de regis- trar o voto.


A analista lembra que nas elei- ções primárias deste ano, mais de 500 mil votos foram eliminados por erros. “Pode parecer um número pouco significativo, mas quando a gente olha para os estados indivi- dualmente, o impacto pode ser bem relevante”, diz. Ela cita o exemplo de Wisconsin, um estado pêndulo (que não tem preferência clara por eleger democratas ou republica- nos). “Nas primárias deste ano, 23 mil votos foram desconsiderados. Em 2016, Trump venceu neste esta- do por cerca de 2.700 votos. Ou se- ja,é uma variável que pode acabar tendo um impacto super relevante em quem vence”, compara.

O sistema americano funciona por meio de colégio eleitoral, em vez de voto popular de proporção populacional. Em outras palavras, a vitória no colégio eleitoral de um estado pode acabar resolvendo uma eleição. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2000 quando o voto eleitoral foi contestado, depois de George W. Bush e Al Gore estarem praticamente empatados na Flóri- da, último estado a definir a eleição naquele ano. “O país inteiro acabou aguardando por mais de um mês o resultado da eleição”, relembra. Para o mercado,a contestação do resultado eleitoral de novembroé um cenário bastante provável de acon- tecere também o que traria maiores incertezas, pois tem o potencial de ameaçar as instituições americanas, especialmente diante da postura de Trump,e de seu vice Mike Pence, de não confirmarem se vão aceitar um resultado desfavorável.


Sol Azcune salienta que as institui- ções americanas são sólidas e, por- tanto, mesmo que demore um pou- co mais para sair o resultado oficial, a tendência é que o embate seja re- solvido dentro de um prazo razoável, com pouco riscos de escalar para um crise constitucional “como poderia acontecer em outros países”.


Nos EUA, os estados são respon- sáveis pela votação e a contestação deverá ocorrer em territórios onde o resultado for mais apertado. “Trump não vai contestar todos os estados, ele vai escolher aqueles onde o voto for mais acirrado,e geralmente isso tende a acontecer nos famosos swing states (estado pêndulos), como Pen- silvânia, Wisconsin, Michigan, Fló- rida e outros.”

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